O AMOR É TUDO
Os judeus chegaram a contar até seiscentos e treze mandamentos que deviam ser observados para cumprir integralmente a Lei. Por isso, não era estranho nos círculos rabínicos colocar perguntas como a que fazem a Jesus, numa tentativa de encontrar o essencial: qual é o maior mandamento?
Jesus responde de forma clara e precisa: «O primeiro é: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu ser”. O segundo é este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não há mandamento maior do que estes». Como escutar hoje estas palavras fundamentais de Jesus?
Há algo que se revela com toda a clareza: o amor é tudo. O que nos é pedido na vida é amar. Aí está a chave. Podemos depois tirar todas as consequências e implicações, mas o essencial é viver diante de Deus e dos outros numa atitude de amor. Se pudéssemos agir sempre assim, tudo estaria salvo. Nada é mais importante do que isto, nem mesmo a prática de uma determinada religião.
Mas por que razão o amor é a força que dá sentido, verdade e plenitude à vida? Esta centralidade do amor está enraizada, segundo a fé cristã, numa realidade: Deus, origem de toda a vida, é Ele mesmo amor. Essa é a definição ousada e insuperável da fé cristã: «Deus é amor» (1 João 4,8). Dito ainda de que forma imperfeita, Deus consiste em amar; Deus não sabe, não quer e não pode fazer outra coisa senão amar. Podemos duvidar de tudo, menos do seu amor.
Precisamente por isso, amar a Deus é encontrar o nosso próprio bem. O que dá verdadeira glória a Deus não é o nosso sofrimento, mas a nossa vida e plenitude. Quem ama a Deus e se sabe amado por Ele com amor infinito aprende a olhar-se, a estimar-se e a cuidar-se com verdadeiro amor. Que força e dinamismo gera em nós esta forma de nos entendermos. Quantos medos e angústias desaparecem dentro de nós. Quão diferente é a vida quando a pessoa aprende a dizer: «Senhor, que se faça a tua vontade, porque assim se vai forjando também o meu bem».
Por outro lado, é então que se compreende na sua verdadeira profundidade o segundo mandamento: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Quem ama a Deus sabe que não pode viver numa atitude de indiferença, despreocupação ou esquecimento dos outros. A única postura humana diante de qualquer pessoa que encontramos na vida é amá-la.
Isso não significa viver da mesma forma a intimidade com a esposa, a relação com o cliente ou o encontro fortuito com alguém na rua. O que nos é pedido é agir, em cada caso, procurando positivamente o bem que desejamos para nós mesmos. Num tempo em que tudo parece ser posto em causa, é bom recordar que há algo incontestável: o homem é humano quando sabe viver amando a Deus e ao próximo.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez






